Entre nós e redes: a ascensão de mulheres na burocracia federal brasileira
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Resumo
Esta dissertação investiga como as redes sociais influenciam a nomeação de mulheres para cargos de liderança na administração pública federal brasileira. Embora as mulheres representem a maioria do funcionalismo público, permanecem sub-representadas nos níveis mais altos da hierarquia estatal. A literatura tem explicado esse fenômeno a partir da burocracia representativa, da divisão sexual do trabalho e do conceito de teto de vidro, além do debate sobre motivações técnicas e políticas nas nomeações públicas. No entanto, ainda são escassos os estudos que incorporam a dimensão relacional como elemento central para compreender os processos concretos de acesso ao poder. A pesquisa enfrenta essa lacuna ao analisar as redes sociais de mulheres da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental (EPPGG), buscando responder à seguinte pergunta: como as redes sociais das mulheres influenciam sua nomeação para cargos de liderança no serviço público federal? O estudo adota abordagem metodológica mista, combinando análise de dados administrativos, survey com 46 servidoras e 24 entrevistas semiestruturadas com mapeamento de redes egocêntricas. As trajetórias foram organizadas a partir da combinação entre nível de cargo ocupado e padrão de mobilidade institucional, permitindo comparação entre quatro grupos analíticos. Os resultados mostram que a dimensão relacional é central para explicar a nomeação a cargos de alto escalão. Em contextos de alta discricionariedade, capital relacional qualificado é condição necessária para ascensão, pois garante proximidade com circuitos decisórios, confiança e visibilidade no momento da escolha. O capital técnico também é necessário, mas não suficiente: formação e experiência elevadas estão presentes em todos os grupos, e o que diferencia as trajetórias é a capacidade de fazer circular essa competência nas redes certas. A mobilidade institucional, isoladamente, não explica os desfechos; é a articulação entre capital técnico e relacional que permite converter circulação em ascensão. Ao mesmo tempo, a divisão sexual do trabalho limita o investimento em redes, produzindo estruturas menores e menos estratégicas. Por fim, a agência individual e intencionalidade ajudam a explicar por que, diante de condições semelhantes, algumas mulheres ascendem e outras não. Ao articular teorias de gênero, literatura sobre nomeações públicas e análise de redes sociais, o estudo contribui para refinar a compreensão dos processos de acesso à liderança na burocracia federal, incorporando a dimensão relacional como categoria analítica relevante. Para além da contribuição teórica, os achados oferecem subsídios para políticas de gestão de pessoas e iniciativas institucionais voltadas à promoção da equidade de gênero no Estado brasileiro.
