PTRF descentralização gestão escolar e padrões de execução

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O Programa de Transferência de Recursos Financeiros (PTRF) é uma política de descentralização financeira implementada pela Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, que repassa recursos diretamente às unidades educacionais da rede municipal para custeio de manutenção, materiais e atividades pedagógicas. A partir de 2018, o programa passou por inflexão expressiva em sua escala orçamentária, com os repasses saltando de R$ 38,7 milhões em 2017 para R$ 524,5 milhões em 2023 — crescimento sem correspondência com a variação de matrículas ou de unidades escolares. Essa transformação suscita a questão central desta pesquisa: a ampliação da escala financeira do PTRF foi acompanhada por mudanças qualitativas nos padrões de execução, ou o modelo de autonomia regulada preservou a hierarquia de prioridades de gasto historicamente consolidada? O estudo analisa os padrões de execução financeira do PTRF no biênio 2023–2024, examinando os fatores institucionais que condicionam o uso dos recursos transferidos. A pesquisa tem caráter exploratório e utiliza como fonte primária os microdados administrativos extraídos do SIG-Escola. A base analisada compreende 120.756 lançamentos de despesas de 628 unidades escolares em cinco Diretorias Regionais de Educação, totalizando R$ 482,9 milhões, categorizados à luz do referencial do Custo Aluno-Qualidade (CAQ). Os resultados evidenciam que 72,1% dos recursos foram destinados à infraestrutura e manutenção predial — percentual estável em relação à literatura anterior, porém sobre base financeira incomparavelmente maior — e apenas 5,5% a ações pedagógicas, culturais e de ampliação da experiência educativa. Cinco achados estruturam a interpretação: a ampliação dos recursos não reconfigurou o padrão de gasto; o modelo per capita produz isonomia formal sem garantir equidade material; a autonomia financeira opera como mecanismo de resposta emergencial, não como instrumento do projeto pedagógico; a instabilidade orçamentária subordina o calendário pedagógico ao de prestação de contas; e a SME, ciente do padrão via SIG-Escola, restringe seu acompanhamento à conformidade legal, sem supervisão orientada à finalidade pedagógica do programa. Achado contraintuitivo aponta que a ausência de atividades culturais nas escolas mais vulneráveis não decorre de insuficiência de recursos — essas unidades encerraram o biênio com saldo médio de R$ 188 mil não executado —, mas de limitações na capacidade de gestão e planejamento. Com base nos achados, são formuladas oito proposições organizadas em quatro eixos: reestruturação da manutenção predial; fortalecimento da dimensão pedagógica; redução das desigualdades institucionais entre regionais; e formação, suporte técnico e gestão democrática. O estudo contribui para o debate sobre financiamento da educação básica ao demonstrar que a descentralização financeira, sem equidade no suporte institucional, orientação estratégica, formação dos gestores e supervisão pedagógica ativa, tende a reproduzir desigualdades em vez de superá-las.


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