Gestão intercultural em micro e pequenas empresas: estratégias de integração entre gestores chineses e equipes brasileiras
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Resumo
Este estudo investiga como se manifestam choques culturais entre executivos chineses em posições de liderança e trabalhadores operacionais brasileiros em micro e pequenas empresas localizadas no Brasil, bem como analisa de que modo estratégias de adaptação cultural, comunicação e gestão podem contribuir para reduzir tensões e favorecer a cooperação no ambiente de trabalho. Para tal, o problema de pesquisa que orienta sua realização consiste em compreender de que forma as diferenças culturais entre executivos chineses em cargos de liderança e trabalhadores operacionais brasileiros se manifestam no cotidiano de micro e pequenas empresas no Brasil, e que estratégias gerenciais podem contribuir para mediar os choques decorrentes dessas diferenças. Do ponto de vista teórico, o estudo articula diferentes contribuições da literatura de gestão intercultural e dos estudos organizacionais. Em primeiro lugar, mobiliza os estudos sobre diferenças culturais nacionais, especialmente o modelo das dimensões culturais de Hofstede, utilizado como quadro heurístico inicial para compreender contrastes entre Brasil e China em torno de hierarquia, coletividade, temporalidade, incerteza e expressividade relacional. Em segundo lugar, incorpora a literatura sobre guanxi, entendido como lógica relacional central ao contexto chinês, baseada em confiança acumulada, reciprocidade contínua, lealdade e obrigação moral. Em terceiro lugar, dialoga com o debate sobre o jeitinho brasileiro, compreendido como forma culturalmente situada de mediação entre norma e relação, marcada por flexibilidade situacional e acomodação prática diante de circunstâncias concretas. Em quarto lugar, o estudo integra contribuições sobre comunicação intercultural, liderança, confiança, diversidade cultural em equipes e inteligência cultural, construindo um quadro analítico capaz de relacionar diferenças culturais mais amplas às práticas organizacionais efetivamente observadas no campo empírico. Metodologicamente, a pesquisa adota abordagem qualitativa de orientação interpretativa, envolvendo entrevistas semiestruturadas e observação não participante, complementadas por registros em diário de campo. O tratamento analítico do material foi conduzido de forma indutiva, com inspiração na Grounded Theory. Os principais contrastes observados concentram-se em torno de eficiência e desempenho, comunicação, autoridade, reconhecimento e estilo de liderança. De um lado, os gestores chineses tendem a associar bom desempenho à rapidez, à padronização, à disciplina operacional e à aderência a procedimentos. De outro, os trabalhadores brasileiros atribuem maior peso à clareza das orientações, à qualidade da interação, ao respeito interpessoal e à necessidade de compreender o sentido da tarefa antes de executá-la. A eficiência, nesse contexto, não emerge como categoria neutra, mas como construção culturalmente situada e relacionalmente disputada. Os dados indicam que a liderança intercultural se constrói em um terreno instável entre controle e relação: os gestores chineses tendem a preservar traços de maior disciplina, supervisão próxima e foco em metas, mas, diante da convivência com equipes brasileiras, muitos passam a ajustar suas formas de comunicação, a reconhecer o peso do elogio, a ampliar explicações e a modular a rigidez inicial. A análise também evidenciou um paradoxo central entre produtividade e vínculo. Os resultados mostram ainda que a multiculturalidade opera como processo contínuo de adaptação e tradução cultural. O estudo demonstra, ademais, que o contexto das micro e pequenas empresas atua como fator amplificador desses processos. A baixa formalização, a centralização decisória, a ausência de mediações institucionais robustas e a proximidade entre chefia e operação fazem com que diferenças culturais sejam vividas de modo mais direto, menos amortecido e mais dependente das interações concretas do cotidiano. Se, por um lado, isso amplifica ruídos, tensões e conflitos, por outro também abre espaço para ajustes mais rápidos e mediações mais imediatas, desde que exista disposição gerencial para escuta, tradução e construção de inteligibilidade recíproca.
