Dois Estados Novos, um jornal: o Correio da Manhã e os regimes autoritários no Brasil e em Portugal

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Esta tese analisa a atuação do Correio da Manhã, principal jornal da capital federal, diante da consolidação de dois regimes autoritários nas décadas de 1930 e 1940: o Estado Novo de Getúlio Vargas, no Brasil, e o Estado Novo de António de Oliveira Salazar, em Portugal. O objetivo central é compreender a aparente contradição de um periódico que, embora se apresentasse como ferrenho defensor do liberalismo e crítico do autoritarismo varguista, manteve postura complacente — por vezes enaltecedora — em relação à ditadura salazarista. A hipótese defendida é a de que essa dualidade não decorre de incoerência editorial, mas de uma estratégia deliberada, aqui denominada liberalismo instrumental: a modulação seletiva dos princípios liberais conforme os imperativos de classe e as circunstâncias políticas. No plano interno, o jornal resistiu a Vargas de forma velada e polifônica para preservar sua influência simbólica junto às elites urbanas. No plano externo, silenciou sobre a repressão em Portugal — inclusive sobre o campo de concentração do Tarrafal — para não alienar a influente comunidade luso-brasileira do Rio de Janeiro, cujo apoio econômico e político era vital. A análise comparativa da cobertura jornalística, apoiada nos referenciais teóricos de Hobsbawm ("invenção da tradição") e Laclau ("razão populista"), revela que o Correio da Manhã não era antiautoritário por princípio, mas sim antipopulista: tolerava o autoritarismo "estático" e desmobilizador de Salazar, enquanto combatia o autoritarismo "dinâmico" e mobilizador de Vargas, que ameaçava diretamente o papel do jornal como mediador privilegiado entre Estado e sociedade.


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