O conservadorismo econômico e o poder discursivo empresarial: uma análise longitudinal dos posicionamentos públicos da CNI (2012–2025)
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Resumo
Este trabalho estuda como as grandes organizações empresariais usam o discurso para defender os seus interesses e influenciar as políticas públicas, focando-se nas mudanças de governo no Brasil. O objetivo é entender como a Confederação Nacional da Indústria (CNI) adapta e justifica as suas posições políticas e econômicas dependendo de quem está na Presidência da República. Para isso, a pesquisa analisou 518 posicionamentos oficiais da entidade entre 2012 e 2025. A análise foi feita em duas etapas: primeiro, usou-se um processamento computacional para mapear de forma automática os grandes temas ao longo dos anos; depois, foi feita uma leitura detalhada para identificar as principais estratégias de argumentação e persuasão da CNI. Os dados revelam que a CNI possui um "DNA" ideológico muito estável e focado no conservadorismo econômico, que representou 72,20% de todo o seu discurso ao longo dos 14 anos analisados. Contudo, a prioridade dada a cada tema mudou bastante de acordo com o contexto político. O impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, funcionou como uma grande janela de oportunidade: no governo de Michel Temer, a CNI aumentou a sua pressão pública para apoiar reformas liberais, com forte destaque para a Reforma Trabalhista e discursos focados em "modernização". No governo de Jair Bolsonaro, o foco mudou para a privatização e a concessão de infraestrutura, enquanto o tema trabalhista perdeu força por já ter sido aprovado. Por fim, a transição para o governo Lula 3 mostrou a capacidade de adaptação da entidade: com a aprovação da autonomia do Banco Central, a CNI aliou-se estrategicamente ao governo para criticar publicamente os juros altos, mas, ao mesmo tempo, bateu recordes de críticas contra a intervenção do Estado na economia. O trabalho conclui que a CNI constrói a sua influência política através de um "silêncio estratégico" sobre temas morais e de costumes (como pautas de gênero ou direitos reprodutivos) e de uma "neutralidade seletiva". Ao isolar debates sociais e focar-se apenas em argumentos técnicos, dados e relatórios econômicos, a organização consegue transformar os interesses das indústrias em uma narrativa de necessidade técnica e progresso para todo o país, protegendo a sua credibilidade e o seu acesso ao poder, não importa quem seja o governante de turno.
