Pass-through cambial em alimentos no atacado e varejo no Brasil
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Resumo
Esta dissertação investiga a transmissão de preços entre os mercados atacadista e varejista de alimentos no Brasil, com ênfase no papel da taxa de câmbio como determinante dos preços domésticos. Utilizando dados mensais de janeiro de 2012 a dezembro de 2023 para cinco produtos da cesta básica (arroz, feijão, carne bovina, frango e leite), o trabalho emprega duas metodologias complementares: o modelo de correção de erro vetorial (VECM) para identificar relações de longo prazo e mecanismos de ajuste, e o modelo autorregressivo com defasagens distribuídas (ARDL) para avaliar robustez temporal e incorporar efeitos cambiais. Os resultados do VECM revelam cointegração robusta para arroz, feijão, carne e frango, evidenciando relações de equilíbrio de longo prazo entre atacado e varejo, com elasticidades superiores à unidade (entre 1,14 e 1,24), indicando margens de comercialização significativas. As funções impulso-resposta confirmam liderança do atacado na formação de preços, com transmissão assimétrica: choques no atacado afetam o varejo de forma robusta (magnitudes de 0,4 a 0,6 desvios padrão), enquanto o movimento inverso é fraco ou insignificante. O leite constitui exceção, apresentando segmentação estrutural sem cointegração entre atacado e varejo. A análise ARDL em quatro subperíodos investiga o efeito direto da PTAX sobre os preços no varejo, controlado o nível de preços no atacado. Os resultados não evidenciam pass-through cambial direto e robusto: para arroz e carne, o multiplicador de longo prazo da PTAX não é estatisticamente significativo em nenhum subperíodo; para feijão e frango, os coeficientes diretos assumem sinal negativo em parte dos subperíodos, com significância em casos isolados, padrão atribuível à multicolinearidade entre log_PTAX e log_atacado — o IPA já incorpora os efeitos cambiais sobre custos dolarizados de produção. A leitura econômica é que o canal cambial atua de forma indireta, via atacado, em linha com a liderança do atacado identificada no VECM. O leite mantém insensibilidade cambial em todos os períodos, confirmando desconexão estrutural entre segmentos. As contribuições do trabalho incluem: (i) evidência empírica atualizada incorporando o período pandêmico; (ii) documentação da heterogeneidade entre produtos em termos de velocidades de ajuste, margens de comercialização e padrões de transmissão; (iii) caracterização do canal cambial como mecanismo indireto, intermediado pelo atacado; e (iv) caracterização do caso singular do leite como mercado segmentado. As funções impulso-resposta também indicam que choques cambiais transmitem-se ao varejo com defasagem da ordem de 2 a 4 meses, informação relevante para o calibre temporal de políticas de estabilização. Os resultados têm implicações diretas para gestão macroeconômica, políticas setoriais e regulação de mercados: como o canal de transmissão opera via atacado, intervenções estabilizadoras tendem a ser mais eficazes nesse estágio, ainda que os custos logísticos, tributários e de organização industrial expliquem parte das margens observadas no varejo — limitando o repasse mecânico das variações de preços ocorridas a montante da cadeia.
