Faces da desigualdade: os efeitos da circulação de retratos de crianças desaparecidas no Brasil

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2017

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Em 1996 foi criado, no Rio de Janeiro, um serviço público especializado no desaparecimento de crianças e adolescentes: o SOS Crianças Desaparecidas. A criação do SOS atendeu a determinações da lei federal brasileira conhecida como Estatuto da Criança e do Adolescente, e respondeu à crescente importância conferida, sobretudo por meio da luta de familiares de vítimas, ao fenômeno do desaparecimento de pessoas no Brasil. A partir de pesquisa etnográfica realizada nas dependências do SOS, o artigo trata dos múltiplos efeitos provocados por uma das principais ações realizadas pelos assistentes sociais que trabalham no serviço: a divulgação sistemática de retratos de meninas e meninos desaparecidos, realizada por meio de convênios com ONGs, associações de familiares de desaparecidos, empresas e outros parceiros. Argumento que a difusão de fotografias de desaparecidos provoca efeitos não apenas na trajetória particular de cada desaparecimento assim divulgado, mas também nas biografias de outras crianças e adolescentes não diretamente envolvidos nos casos, que se tornam alvo de intervenções por parte de serviços e órgãos públicos. Mais especificamente, busco demonstrar o papel tão sutil quanto determinante de certas categorias e julgamentos morais na definição de quais outras crianças e adolescentes além das vítimas de desaparecimento podem terminar por sofrer intervenções em consequência da circulação de retratos de meninas e meninos desaparecidos.

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