Ausência de especialistas e desafios da gestão médica: análise de dois serviços de saúde em São Paulo
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Data
2025-10-22
Autores
Orientador(res)
Malik, Ana Maria
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Resumo
O provimento de especialistas em unidades de saúde da cidade de São Paulo continua sendo um desafio expressivo, especialmente em setores de emergência e em áreas periféricas. A ocupação de postos de trabalho originalmente destinados a médicos especialistas por profissionais sem residência médica é reflexo de uma conjunção de fatores estruturais: escassez de recursos humanos qualificados, concentração de programas de residência em centros de excelência e falhas nas políticas públicas voltadas à formação, distribuição e fixação desses profissionais. Tal cenário repercute de forma direta na qualidade do atendimento prestado à população e compromete a segurança dos usuários, tanto no Sistema Único de Saúde (SUS) quanto nos serviços da rede privada. Objetivo: Analisar as causas e os efeitos da presença de médicos sem residência médica atuando em postos de trabalho destinados a especialistas na rede de saúde da capital paulista, com foco especial em serviços de urgência e emergência. Além disso, o estudo visa investigar fatores que restringem a oferta ou a adesão à formação especializada e propor estratégias de gestão voltadas à qualificação e retenção desses profissionais. Metodologia: Trata-se de uma pesquisa de abordagem mista, que articula dados quantitativos secundários provenientes de sistemas oficiais (CNES, CREMESP, IBGE, SIS-CNRM) e dados qualitativos coletados por meio de questionário eletrônico estruturado e entrevistas semiestruturadas com dois grupos: médicos atuantes em unidades de emergências públicas e privadas com foco na área pediátrica (com e sem residência médica) e gestores de unidades de saúde. As entrevistas buscaram explorar trajetórias profissionais, motivações para adesão ou não à especialização, percepções sobre as condições de trabalho e sugestões para políticas de gestão da força de trabalho em saúde. O material qualitativo foi analisado por meio da técnica de análise temática, a fim de identificar padrões, desafios e propostas recorrentes. Resultados: Nas unidades de emergência pediátrica pública e privada analisadas, localizadas na zona Norte da cidade de São Paulo, observou-se o predomínio de médicos generalistas nas escalas de plantão, inclusive nos turnos com maior demanda clínica. Muitos desses profissionais atuavam em regime PJ, com vínculos precários e alta rotatividade. Essa configuração institucional compromete a continuidade do cuidado, aumenta o número de encaminhamentos para outros serviços e fragiliza a resolutividade clínica local. Embora os achados se refiram a uma única unidade do setor privado, eles são consistentes com tendências apontadas na literatura nacional, como a concentração das vagas de residência médica em instituições localizadas em áreas centrais, a ausência de planos de carreira estruturados nos hospitais públicos regionais e a baixa atratividade das condições de trabalho oferecidas aos especialistas. Conclusão: A manutenção de profissionais sem formação especializada em áreas sensíveis como a pediatria, mesmo em unidades privadas, reforça a precarização do cuidado, acentua desigualdades regionais e revela lacunas na articulação entre formação médica e planejamento da força de trabalho em saúde. Esse diagnóstico aponta para a necessidade de políticas públicas integradas, que contemplem a valorização de especialistas, a interiorização e descentralização da formação médica e o fortalecimento de vínculos profissionais estáveis, tanto na rede pública quanto nos serviços privados, sobretudo em regiões vulneráveis da metrópole paulistana.
