Gritos, gagueiras e sussurros: discurso do poder e poder do discurso no novo Museu do Ipiranga
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Data
2026-03-19
Autores
Orientador(res)
Farah, Marta Ferreira Santos
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Resumo
Este trabalho parte de uma situação ímpar no cenário museológico brasileiro: a rara oportunidade de reformulação de um grande museu a partir de seu fechamento total. Essa circunstância foi vivenciada pelas equipes do Museu do Ipiranga, braço do Museu Paulista da Universidade de São Paulo desde a década de 1960, com o fechamento emergencial da visitação em 2013. Em nove anos distante dos seus públicos, o primeiro e mais visitado museu de São Paulo viu a chance de reestruturar seus espaços e reformular suas exposições até a efeméride do Bicentenário da Independência, data limite para sua reabertura. Para a efetivação do “Novo” Museu do Ipiranga não foi preciso apenas a edificação de uma governança interinstitucional complexa, envolvendo universidade, governos estadual e federal e financiadores, mas a reflexão sobre qual é o papel deste museu. Para interpretar esses movimentos, a problematização que conduz este trabalho parte da identificação de dois registros diferentes, ao mesmo tempo opostos e coexistentes, de ação sobre o patrimônio cultural no Brasil. De um lado, uma forte pressão tecnocrática, que estabelece a primazia do saber do especialista do patrimônio. Por outro lado, uma insistente tensão democratizante, que promove maior participação e inclusão. Durante o processo de reabertura, essas duas forças se encontraram para produzir um “Novo” Museu. Perguntamos, assim, como se opera, no cotidiano do “Novo” Museu do Ipiranga, o tensionamento entre discursos e práticas tecnocráticas e democratizantes? Para atender a esse questionamento, partimos das premissas do materialismo cultural e propomos a noção de cacofonia performática a fim de captar as idiossincrasias desse caso. Com esse ferramental teórico-empírico, temos como objetivos desta pesquisa: (1) contrapor diferentes concepções de patrimônio cultural que guiaram a ação do Museu do Ipiranga desde a sua consolidação enquanto museu histórico; (2) investigar a execução do projeto do “Novo Museu do Ipiranga” com foco nos discursos e práticas dos agentes desse processo; (3) nomear diferentes linguagens da ação pública que convivem neste Museu garantindo ênfase às diferentes formas de compreender e trabalhar sobre o patrimônio cultural; (4) distinguir, a partir dessa diversidade de linguagens de ação, discursos e práticas que se vinculam ao registro tecnocrático daqueles ligados a registros democratizantes; e (5) usar o caso do “Novo” Museu do Ipiranga para refletir sobre as possibilidades de projetos democratizantes no campo do patrimônio cultural. Ao final da pesquisa, somos capazes de compreender as formas de convivência e diálogo entre os diferentes registros de ação sobre o patrimônio cultural e como o Museu do Ipiranga se equilibra entre pressões tecnocráticas e forças democratizantes.
